O precatório parado e o exemplo do gás: quando o tempo corrói o valor do dinheiro

Para compreender, de forma simples, por que um precatório pode perder valor ao longo do tempo, basta recorrer a um exemplo cotidiano, familiar a qualquer brasileiro: o gás de cozinha.

Há poucos anos, um botijão custava em torno de R$ 50. Hoje, em muitas regiões do país, o mesmo produto é vendido por valores próximos a R$ 120. Nada mudou no botijão. O peso é o mesmo, a utilidade é a mesma, o produto é o mesmo. O que mudou foi o valor do dinheiro ao longo do tempo. Quem tinha R$ 50 naquela época conseguia comprar um botijão inteiro. Quem manteve esse dinheiro parado não ganhou nada, mas perdeu poder de compra.

Com o precatório, a lógica é semelhante.

O precatório é um direito reconhecido judicialmente, com valor formalmente definido. No entanto, enquanto permanece parado, aguardando pagamento, o tempo continua correndo. Nesse intervalo, o custo de vida aumenta, os preços sobem e o dinheiro perde capacidade real de compra. Ainda que haja correção monetária, ela muitas vezes não reflete, na prática, a inflação sentida no dia a dia nem as oportunidades que o mercado oferece.

Na prática, isso significa que um precatório que hoje representa R$ 100 mil pode até ser pago, no futuro, por um valor nominalmente corrigido, mas com poder de compra inferior ao que teria se fosse convertido em liquidez e estruturado de forma adequada no presente. É o mesmo que guardar R$ 50 esperando comprar um botijão mais adiante e descobrir, anos depois, que o dinheiro já não é suficiente.

É nesse ponto que entra a lógica da gestão ativa do crédito. Assim como ninguém adia indefinidamente a compra do gás esperando que ele “fique mais barato”, faz pouco sentido tratar o precatório como um ativo que deve permanecer inerte enquanto o tempo atua contra ele. Antecipar, estruturar ou aplicar esse crédito de forma estratégica permite substituir a espera passiva por uma decisão consciente de preservação de valor.

Deixar o precatório parado é aceitar que o tempo decida sozinho. Gerir esse crédito é assumir o controle, buscando proteger o poder de compra e transformar um direito futuro em soluções concretas no presente.

No fim, o raciocínio é simples: o problema não é ter um precatório. O problema é deixar o valor dele parado enquanto o custo da vida continua subindo.

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